Vai ouvindo...
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  • Zé Quinha e Zé Cão - Vai Ouvindo...

    Editora Guanabara, 1993

    Para contar a história desta dupla, aproveitei as seguintes experiências: a de violeiro, minha vivência no Urucuia e os tempos de repórter, quando entrevistei muitas duplas. Inventei o povoado de Barrerinha, o rio Catingueira, uma dupla e suas histórias.

    O livro é todo escrito em "sertanês". Enquanto trabalhava, o causo só fluía quando me vinha a voz do narrador, um homem nascido e criado no sertão, que dá a sua visão de tudo que acontece na vida da dupla. De sua formação ao estrelato. Com direito a todas as explicações. E sem esquecer do capeta.

    Vivi um bom tempo em função da criação de "Zé Quinha e Zé Cão, vai ouvindo..." Morava em São Sebastião, litoral norte de São Paulo, ficava por conta dos personagens e suas histórias. Ainda hoje escuto a voz do narrador soprando no meu ouvido:

    "Se é ou se não é, aí, bão, aí cê bota o arreparo que quiser. Mas não é de caçar mentira, pois nunca que vou falar de uma coisa que não foi. É que tem vez que nós acaba achando que só o que entra malemá pelos óio da gente é que é o tal, e só, não é assim mesmo?"

    Neste romance com a "paixão no alteado", o escritor e violeiro Paulo Freire traz, na voz de um sertanejo de Barrerinha, sertão de Minas Gerais, a história da dupla Zé Quinha e Zé Cão. Com uma linguagem saborosa e original, a alma sertaneja é mostrada desde o nascimento atravessado da dupla até o capricho no encontro com o tinhoso.


    Vai ouvindo...

    O trecho do livro que escolhi fala de uma mulher, Luíza, importante demais na trama toda.

    "Arrodeado, mas não esquecido, pois é um causo só; volto pra Luíza. Não, moço, se o criador fez um nigucinho atrás do outro, caprichado, isso só pode virar bonitez, que é o mesmo modo dela. Repare: quanto tempo não foi preciso e quanta coisa boa não foi usada no preparado pra Ele fazer a Luíza do jeitinho mesm que encanta esse tanto? O resto, isso de que a mulher fez isso ou aquilo, e que isso pode e aquilo não, tudo por causa de uma lei criada no rumo de uma idéia tida...Ara, é tudo bobagem, é invenção do povo. Essa lei criada, de vero é diferente pra cada um que enxerga ela, nunca que vi a mesma história agradar todo mundo, tem sempre um que reage desgostoso do acontecido, é sim. Então, se cada um gosta da sua maneira, acaba não dando jeito de dar conta do que é certo. É por isso que digo da formossura da Luíza, qualquer um que olha pra ela fica encantado. Só caçando muita inveja pra dizer o contrário. E como Deus fez esta mulher com o que tinha de melhor na mão, então o que que é o bom? Ela, ara. Vai ouvindo: o que existe é o bonito".